Parte XX – Login
Por Heder Leite
Durante o exame matutino, o médico percebeu o despertar de Ana. A paciente abria os olhos e parecia entender os principais comandos. O dr. Vilson foi chamado pelo plantonista para fazer uma avaliação conjunta. Parecia que a lesão cerebral, temida inicialmente, poderia ser mínima. Ana dava sinais de recuperação neurológica e isso deixava a equipe muito otimista.
A primeira visão de Ana ao abrir os olhos foi traduzida pelo cérebro como um grande clarão, trazendo consigo uma nuvem de dúvidas e incertezas. Não conhecia aquele lugar, aquele teto claro, meio amarelado pelo tempo longínquo de conservação. Tinha certeza de ter visto uma figura vestida de preto sentada ao seu lado, mas essa imagem desaparecia a cada piscar de olhos. Tinha a sensação de ter conversado com Alfredo, mas em sua cama ninguém estava além dela mesma. Sentia o odor doce e leve das mãos de sua mãe, afagando uma dor que outrora sofrera; seu peito ainda tinha o peso do abraço de seu pai. Ana estava confusa e, apesar de compartilhar bons e maus momentos, enxergava à sua frente pessoas estranhas, apontando feixes de luzes em seus olhos, fazendo testes dolorosos, palpando-lhe o abdome em busca do desconhecido. Não sabia do quê, mas Ana sentia falta de algo, quando olhou para o leito ao lado, vazio naquele instante. Procurava ao redor por algo familiar, mas não encontrava. Inclinou os olhos e viu seus pés, desconfiando serem realmente os seus: estavam túrgidos, feios. Não conseguia levantar os braços; uma força contrária não permitia esse movimento. Estava flácida, sua musculatura fraca, condições típicas de um paciente que sobrevive ao estado crítico. Ana tentava falar, mas algo lhe impedia.
Percebeu que em sua garganta algo lhe cortava, causando-lhe uma dor estranha, diferente do que já vivera. Por um instante hiperventilou, causando um estrondo de apitos na máquina que estava ao seu lado. Viu um profissional falando-lhe algumas palavras de apoio; era o fisioterapeuta ajustando o modo do respirador. Ana parecia dominar o aparelho. Em seguida outra pessoa se aproximava, mais velha, com barba branca, tentando lhe acalmar; tentando lhe explicar o que não conseguia entender.
Ana ficara sedada por vários dias. Era justificado o seu temor; acordara e via pessoas desconhecidas, semblantes acolhedores, outros desconfiados, alguns tenros e outros hostis. Ana tinha de confiar naquelas pessoas; questionava-se do que ocorrera naquela cama, tentava se comunicar, mas era inútil.
Ana não sabia por que estava ali, o que tinha acontecido, por que estava com aquele tubo na garganta, e por que sentia tanto frio. Fechou os olhos e viu novamente o anjo ao seu lado, abrindo-lhe o que imaginava serem suas asas. Ali dentro pôde ver diversas fotos de sua mesa, o rosto de seu pai abraçando-lhe após uma aula de balé; a foto de sua mãe com uma de suas tortas; Gustavo e Guilherme brincando com a camisa do Botafogo na praia; Alfredo de terno e gravata, pronto para mais um dia de trabalho. Ana abriu os olhos e continuou vendo o desconhecido; tinha de confiar, tinha de obedecer a ordens de pessoas que nunca tinha visto antes. Ana preferiu fechar os olhos. De olhos fechados confiava no que via, confiava na pessoa que apertava sua mão, que deixava cair sobre sua fronte as lágrimas de saudade, que apertava seu peito com apreço, com afago. Alfredo sentou-se ao seu lado e lhe deu forças, seu pai acariciava os pés de bailarina e sua mãe arrumava seu cabelo para a mais bela das fotos.
A máquina ao seu lado estava programada para controlar sua respiração. Ela é capaz de ventilar o paciente, injetando quantidade pré-definida de gás para os pulmões. O fisioterapeuta guia esta máquina, ajustando os parâmetros, calculando a quantidade de oxigênio e o número de respirações por minuto. Mas Ana despertara e começava a travar com o aparelho uma pequena guerra. Ana queria respirar sozinha, mas o ventilador ainda dominava as ações.
No velório de Alfredo, as pessoas presentes tentavam minimizar o sofrimento de Ana com carinho e palavras de consolo. Os filhos foram os que mais demonstravam sinais de descontrole. Ana mantinha-se ao lado de Alfredo, corpo ereto, olhar altivo, parecendo valorizar a presença do companheiro àquela situação. Os amigos e poucos familiares presentes surpreendiam-se com sua força.
Foram quatro horas de velório; Gustavo e Guilherme se aproximaram de Ana, informando-lhe que a hora do sepultamento havia chegado. Ana respirou fundo, inflou seus pulmões como nunca fizera, fechou os olhos e aceitou a circunstância. Ana dominava um dos momentos mais difíceis de sua vida.
O fisioterapeuta ajustou mais uma vez o ventilador; Ana inspirou e parecia, mais uma vez, dominar a situação. O modo de funcionamento foi alterado.
A máquina estava sendo dominada.
(Continua...)







3 Deixe aqui seu comentário ficarei feliz em ler:
Como em todo texto, eu tenho pressa em saber o final. Leio o começo, o meio e vou logo para o final, só assim consigo ler os livros. Num texto como esse, não tem como antever o final. Fico admirando a escrita, volto a ler para detectar alguma pista, percebo detalhes antes não observados e assim vejo que o escritor é quem mantém o segredo do final.
A delicadeza como foi escrito com pormenores médicos é que chama minha atenção. O escritor Heder detém o segredo do final assim como Ana domina o aparelho. A mim cabe também cabe confiar e aguardar!
grande abraço
A forma de escrever tá linda ... emociona e prende , tô curiosa , bjimmm minha querida que vc tenha muyita luz na sua vida bjimmmm iluminado
Adorei seu blog,sigo e passarei sempre para ver as novidades!
Curti sua page no facebook e te sigo no twitter.
Beijos
Fabíola
http://artesempontocruz.blogspot.com
Postar um comentário